Mensagem
Mensagem Especial

Comprei 4 exemplares deste peixe (Macropodus opercularis) há uns 2 meses, com a intenção de controlar a reprodução de caramujos em meu aquário (pois sabia que é um carnívoro), papel que desempenhou com excelência.
Entretanto observei que, com o tempo, tornaram-se um poruco agressivos com os demais - o que me levou a separar um deles, o mais agressivo - e a estudar melhor a espécie. Descobri assim que este peixe é um Anabantídeo - Parente do Betta (Betta splendens), membro de uma Família que se reproduz segundo um ritual muito particular. Pouco a pouco, o macho constrói seu "ninho de bolhas" que passa a defender contra os demais habitantes do aquário. Então, batizei os meus exemplares com o nome de Sísifo, pois a cada semana, durante minha manutenção e poda de plantas, eu involuntariamente destruía seu ninho. Passei, portanto, a ser mais cuidadoso, e menos frequente em minha manutenção, e resolvi por algum tempo simplesmente "observar" os meus "pacientes".
Dentro em menos que uma semana, tinha eu 2 ninhos de bolhas, um em cada canto do aquário, O terceiro peixe assumiu cores mais esmaecidas e, dentro de mais uma ou duas semanas, já estava visivelmente mais "gordinho". Todos os três defendiam vigorosamente a área agora "sagrada" na superfície do aquário.
Uma semana depois, para minha surpresa, as bolhas haviam diminuído!! Sísifo, contudo, continuava a defender seu território. Olhando a superfície do aquário, percebi que agora mais se parecia com o "mar de sargaços": uma camada de plantas flutuantes e resíduos vegetais formava um mundo de cavernas e esconderijos protegido por uma "nata" verde de algas suspensas; tirei os óculos para amenizar minha idade - expressa na presbiopia, e observei melhor: naquela massa enrolada de Elodeas e Cabombas, percebi inúmeros e minúsculos alevinos, se alimentando da massa digerida que seus pais lhe haviam deixado de herança (nessa idade, os alevinos se alimentam de infusórios, pequenos protozoários, amebas e algas de vida livre, cujo suprimento os pais haviam garantido...)
Resumindo a história: entre os ataques de outros peixes e outros fatores, até hoje ainda tenho receio de destruir o "mar de sargaços", mas de vez em quando supreendo algum alevino, capturo-o delicadamente com uma redinha ou copo transparente, e o isolo em uma criadeira própria...
Toda esta estória longa de mineiro é para levar minha mensagem aos colegas pelo nosso dia:
Que nossos diagnósticos sejam como o comportamento deste curioso exemplar da natureza: feitos um a cada momento, e com a persistência dos que estão seguros de que, entre todos os seus pacientes, são fundamentais a observação arguta, o cuidado sistemático e individualizado, e, em alguns casos, simplesmente a expectativa e a não-intervenção. E que guardemos, sempre, a esperança de que, dentre muitos, pelo menos alguns ter uma "mão" externa que os selecionará para um melhor destino.
Mas que sobretudo lembremos que devemos trabalhar por todos, mesmo que as condições nos pareçam adversas.
Mensagem enviada pelo Dr. Victor Lage Araújo - Patologista Clínico